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7 de fev de 2010

Sinais na Amazônia indicam sociedade "perdida", diz estudo


Centenas de círculos, quadrados e outras formas geométricas que a floresta um dia escondia indicam a possibilidade de que tenha existido uma sociedade antiga desconhecida que floresceu na Amazônia, de acordo com um estudo recente. Imagens de satélites sobre a porção superior da Bacia Amazônica, obtidas de 1999 em diante, sugerem mais de 200 escavações geométricas, cobrindo distância superior a 250 km.
Agora, os pesquisadores estimam que quase 10 vezes mais estruturas como essas - de propósito ainda desconhecido - possam existir, sem que tenhamos sido capazes de detectá-las, por sob a capa da floresta amazônica. Pelo menos um dos sítios foi datado, e remonta ao ano de 1283, ainda que outros dos sítios possam ser mais antigos, talvez datados do ano 200 ou 300, disse Denise Schaan, antropóloga da Universidade Federal do Pará, no Brasil, e co-autora do estudo.
A descoberta revela novos indícios de que as áreas remotas da Amazônia no passado abrigavam sociedades numerosas e complexas, a maioria das quais posteriormente extintas por efeito das doenças trazidas à América do Sul pelos colonos europeus, nos séculos XV e XVI, disse Schaan.
Porque essas sociedades desapareceram sem deixar registros, pesquisas anteriores sugeriam que a terra da porção superior da Bacia Amazônica não fosse nutriente o bastante para sustentar a agricultura extensa necessária a alimentar assentamentos permanentes de porte tão grande. "Mas nós constatamos que essa teoria não procede", disse Schaan. "E existe muito mais a descobrir nesses lugares".
Cultura de amplo alcance
As formas descobertas foram criadas por uma série de fossas de cerca de 11 m de largura e com profundidade de alguns metros, e parapeitos de terra adjacentes com altura de até 1 m. Estradas retas conectam muitas das estruturas. As escavações preliminares de um dos sítios, em 2008, revelaram que algumas das estruturas estavam cercadas por pilhas baixas de sedimentos que continham cerâmica de uso caseiro, carvão, fragmentos de pedra de amolar e outros indícios de habitação.
Mas quem teria construído essas estruturas e as funções a que elas poderiam servir continua a ser um mistério. As ideias variam de fortificações a centros cerimoniais e moradias, segundo os autores do estudo. Também é possível que as estruturas tenham servido a propósitos diferentes ao longo do tempo, apontou William Woods, geógrafo e antropólogo da Universidade de Kansas, em Lawrence, que não participou da pesquisa.
"Por exemplo", disse ele, "aqui em Lawrence existe uma loja maçônica que hoje funciona como bar. Existe um banco, que hoje se tornou um restaurante chamado Tellers. Coisas como essa acontecem". O que mais surpreendeu os pesquisadores é o fato de que as escavações estejam presentes tanto nas planícies alagadiças quanto nos altiplanos da região.
Em termos gerais, as planícies alagadiças da Amazônia são regiões férteis que sempre foram populares entre as civilizações do passado, enquanto as terras altas, menos produtivas, sempre foram vistas como pouco povoadas, de acordo com os pesquisadores.
Mas as escavações localizadas em ambas as regiões apresentam estilo semelhante, o que sugere que teriam sido construídas pela mesma sociedade. "Na arqueologia amazônica sempre existe essa ideia de que encontraremos povos diferentes quando pesquisamos ecossistemas diferentes", disse Schaan, a co-autora do estudo. "E por isso é um tanto estranho que exista uma cultura capaz de aproveitar ecossistemas diferentes e de se expandir por uma região tão extensa".
População "espantosa"
Os sítios localizados nos altiplanos parecem ter abrigado população da ordem de até 60 mil pessoas, sugerem Schaan e seus colegas no estudo, publicado este mês pela revista Antiquity. O número se baseia em estimativas da organização social e da força de trabalho que teria sido requerida para construir as estruturas cuja presença é indicada pelas escavações remanescentes.
De acordo com Woods, da Universidade do Kansas, a estimativa de população é razoável, embora imprecisa, porque tão pouco se sabe sobre esse complexo. Respostas podem começar a emergir à medida que os pesquisadores escavem os sítios recentemente descobertos, nos próximos anos.
Mas Woods está impressionado com a possibilidade de que tanta gente tenha vivido em uma região por tanto tempo considerada como inabitada. "Tradicionalmente, se você tivesse perguntado a um antropólogo ou arqueólogo sobre o número de pessoas que poderiam ter vivido (nos altiplanos da Amazônia) a resposta seria de quase zero", ele afirma. "E assim, é espantoso que tenham existido 60 mil pessoas tentando construir suas vidas em um lugar onde ninguém deveria estar", acrescentou.
Tradução: Paulo Migliacci ME

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