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9 de jul de 2010

Nascida negra, de pais brancos e no meio do Apartheid


Nascida de pais brancos, ultra conservadores e proselitistas do Apartheid,Sandra Laing herdou pela graça de Mendel e de longínquos antepassados, apele negra de uma raça por sempre agravada. O pigmento silencioso de um ancestral desconhecido acordou no pior lugar e momento. Sandra nasceu negra, mas o ofuscamento e pressão familiar converteram-na em uma branca postiça até que a mentira apareceu. Esta é a fantástica e ridícula história da busca de uma identidade perdida dentro de um regime tão absurdo quanto irracional.
Sandra Laing posa junto a seus pais Abraham e Sannie


Sandra Laing tem agora mais de 50 anos. O traço intenso de sua face mostra um passado difícil. Meio século lutando para encontrar um vão na mesma sociedade que pela manhã, no seio de uma família de fiéis "afrikaners", lhe dava de comer; enquanto pela tarde, tendo a pele como documentação, lhe impedia de circular livremente pelas ruas. Uma infância com duas identidades de direitos opostos que minaram sua confiança no sistema e ridicularizaram completamente as bases ideológicas do escuro regime.

- "Meu pai sempre me dizia que eu era branca. Ele pensava em mim como 'sua menina branca'". Sandra Laing

Sandra nasceu em 1955 em Piet Retief, epicentro do integrismo racial e afortunado lugar de bosques perenes e minas douradas. Contam as fontes familiares que a cara de seus pais ao recebê-la neste mundo foi épica. Duas árvores genealógicas mais brancas que o marfim africano polido atribuíam, pela graça de seu Deus branco, o castigo de uma menina de pele manchada, mas com sangue de seu mesmo sangue. Paradoxalmente o mesmo "princípio de segregação" que professavam em comunhão com a doutrina "afrikaner" foi o que determinou a cor da pele da menina:


Segunda Lei de Mendel ou Princípio da segregação: "Certos indivíduos são capazes de transmitir um caráter ainda que neles não se manifeste".
Seus progenitores (Abraham e Sannie) defendiam até morte a pureza de seus ancestrais; catalogação muito comum, por então, para atestar "alto pedigree" e a estirpe das pulcras linhagens. Mas um gene recessivo de alguma geração muito longínqua e não catalogada -com certeza por vergonha- passou a manifestar-se como justiceira nas mãos de uma inocente. Os olhos mostravam uma certeza que a razão anulava por desonra da impureza de sua casta. Um teste de DNA posterior confirmou a paternidade de Abraham e Sannie. Em 1967 o governo sul-africano, a pedido do pai de Sandra, aprovou uma lei que declarava brancos todos os filhos de pais brancos. Sandra Laing branca e a incoerência a serviço do racismo.

Sandra Laing com seu irmão e sua mãe e no colégio de brancos "Deborah Retief".

Os primeiros anos da infância de Sandra foram tão brancos como o expediente de seus progenitores no ritual burguês ultra conservador. Colégio e costumes de brancos salpicados de doutrinamento anti-subversivo na Igreja Reformista Holandesa. A cor da pele e cabelo pixaim eram obviados com dissímulo ignorante por seu progenitor, mas não acontecia o mesmo com os estranhos. Sempre que podia, sua mãe não deixava-a tomar sol para não reforçar ainda mais sua cor natural enquanto penteava seus cabelos diariamente com cremes oleosos numa luta alisadora impossível em épocas de chapinha inexistente. Sandra não entendia nada. Mais adiante seu pai abusaria dos cremes clareadores que queimariam várias vezes o rosto de Sandra.

Após 5 anos na ortodoxa escola infantil e depois da marginalização exercida por toda a criançada aos grito de "macaca" ou "negra suja" foi expulsa, com 10 anos, pela direção, que informou convenientemente às autoridades. Dois policiais escoltaram-na, entre lágrimas, a sua casa. Só o teste de DNA e a força de seu pai à frente do Partido Nacional-racista salvaram Sandra de uma segura deportação para o "gueto negro" da cidade, abandonando o domicílio familiar.

Mas a menina foi recusada pela igreja tradicionalista e repudiada por todo sua comunidade. Não podia se relacionar com nenhum branco nove colégios negaram sua nova escolarização. O pai apelou à requalificação de 1967, mas a lei fabricada por ele mesmo não mudava a cor de sua pele para evitar os preconceitos alheios.

Sandra começou a ir então a lugares frequentados por negros. Aos 16 anos fugiu para a Suazilândia com um quitandeiro zulu chamado Petrus Zwane com o qual se casou mais tarde e teve dois filhos. Seu pai não lhe perdoou nunca por trair os ambíguos princípios que tinha ensinado. Disse que não era mais sua filha -convenientemente-, acusou seu marido de sequestro e prometeu recebê-la a tiros se um dia pisasse de novo suas terras. Morreu antes de voltar a falar com ela.

À volta a sua terra natal, Sandra foi morar no gueto, sem água nem eletricidade e submetida à dureza do Apartheid. Teve retirada a custódia de seus próprios filhos pela mesma lei criada por seu pai e que impedia a convivência de duas raças sob um mesmo teto: ela era ainda legalmente branca. Sobreviveu até a queda do Apartheid em 1990 e a outro casamento, para, após 30 anos, voltar a ver sua mãe e reconciliarem-se.

O reencontro.


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